Quero água na boca antes de beijar, quero tempo para despertar, quero a noite para abraçar, quero chorar depois de amar, quero ser como o ar.
Sei bem que a vida passa a ter o gosto das palavras que se fala. Por isso menina cuide bem de tudo que se diz, falar é temperar a vida. E é por isso que grito sem parar...eu venço, eu venço, eu venço de tanto falar.
Fiz as pazes com as palavras, tenho nos adjetivos amantes, nos verbos amigos e nos substantivos segredos. A estrada de cada palavra é o tempo que a envolve e carrega como folha ao vento. Fuji em boa parte da minha vida dos desejos, tinha a cada um como inimigo, como um adeus a felicidade. Hoje busco cada um deles na dobra mais escondida de minhas próprias entranhas e os saúdo com suas realizações. Sem medo de concretizá-los, com a paciência do mar que puxa a onda com calma sabendo que ela retorna a quebrar na praia...
Fiz de mim a mulher que desejo, que desejei, e que sou. Lacan, Lacan, Lacan... tantos anos de análise para após os trinta entender que desejo o que sou, que é em mim que está o meu prazer, a minha felicidade, a minha liberdade, a minha realização... Eu quero o que sou... ardida, quente, impulsiva, paciente, determinada, inevitavelmente feminina, sou de mim, sou de mim, sou de mim e de mais ninguém.
Sou consciente, hoje experiente, ainda inocente, claramente inconseqüente... Não por não respeitar regras, mas por escolher aquelas que quero brindar, as que faço questão de inventar, de apagar e de rejeitar.
Quero mais, quero sem fim, quero querer e não mais adormecer...
Desvendar as suas escolhas, este é o outro nome que dou a possibilidade analítica da psicologia. Andar para frente, para mim, é sinônimo de clarear o que passou. A cada passo que dou largo uma mala, solto uma dor, transformo a minha história. Somos responsáveis por aquilo que cativamos, boa frase de velho autor, mas ainda esperando para ser explorada. Há muito espero por este momento, há muito busco este estado. Hoje é um dia especial, dia de observação, dia de escolha e preparação.
O maior presente que eu poderia ter me dado foi não descansar até que o Antonio assumisse a sua vontade, fosse ela qual fosse. Eu não acreditava em homens, por motivos diversos, os achava fracos ou burros... Cada um possui um tipo de preconceito, este era o mais forte que eu mesma tinha. Este preconceito era tão sério, tão sério que eu posso afirmar com garantias que todas as minhas escolhas amorosas, tanto quando cedi para uma relação, quando a neguei foram baseadas neste preconceito. Triste... sim, muito, até então! Minha grande libertação foi sacar isto!
Tenho vontade de contar que existem homens diferentes, inteligentes e fortes, sem perder a capacidade afetiva. As dificuldades de relacionamentos acontecem para todos, bonitos, feios, inteligentes, burros, ingênuos, espertões, homens e mulheres. Acredito estar exatamente na linha divisória do caminho da minha vida. Olho para frente, e, sinceramente, não sei mais o que esperar. Sei o que não quero. Não quero mais ser a salvadora da pátria, a inteligente, a rápida, a forte e vários outros adjetivos que meus antigos relacionamentos costumavam me ovacionar quando perguntados por que estavam comigo. Não que deixarei de ser estas coisas, mas as serei para mim e não para o outro. Sim, eu serei forte e inteligente, quando verdadeiramente eu puder ser, nas relações que verdadeiramente eu tiver, mas salvadora da pátria não! Cada um é responsável pela busca da sua felicidade, cada um é responsável pelas coisas que cativa para a sua própria vida.
Em uma relação é preciso saber o que se tem para dar, o que se está disposto a receber e aquilo que você escolhe compartilhar. Hoje eu estou disposta a dar minha parceria, a certeza de ser e estar de verdade, o meu amor, minha atenção e meu carinho. Estou disposta a receber amor, carinho, dedicação, cuidado e a verdade, sempre a verdade. E eu quero compartilhar meu tempo, meus risos, meu colo, minha animação, meu futuro, minha fé, minha força, minha coragem, minha volúpia, minha liberdade e minhas escolhas.
Fala pra mim o que você quer.
Não fique esperando eu descobrir, não me instigue a investigar, não me peça para deduzir, não me faça ter que inventar.
Fale pra mim antes que eu crie e explique o que não dá pra explicar.
Fale pra mim o que quer dizer o seu ato de não falar.
Se assim você deixar eu vou escolher o que pensar e decidir sem dar direito pra você retrucar.
Quando não há palavras não dá pra reclamar, aceite o que vier e agüente sem pestanejar.
Assuma no silêncio a falta de coragem de se posicionar.
Mas não esqueça existe sempre lugar e se você não se coloca rapidamente eu irei lhe encaixar onde melhor me convier, onde mais fácil for pra mim, onde menos me machucar.
Depois de estabelecido para mim o seu lugar, nem o tempo vai salvar, pois a falta de coragem é assim mesmo, lasca, arrasa e impede de retornar.