Não acredito nos vampiros das sagas juvenis, bonitos e bem intencionados, muito menos naqueles que são de contos de terror, poderosos e sagazes. Os vampiros em que eu acredito são aqueles bem, mas bem mais, próximos de nós. Não precisaram perder a vida para sugar a de seu próximo. Talvez se assim houvesse ocorrido eu até entenderia. Estar sem a própria vida e precisar consumir um pouco a do outro para lentamente sobreviver, até poderia ser aceitável pelos meus valores humanos. Mas não, os vampiros em que acredito são outros e são de fácil reconhecimento. Como reconhecê-los?
Primeiro: observe pessoas que não fazem nada de seu próprio punho, de sua própria autoria. E se por força do hábito, ou da necessidade extrema o fazem, criticam e desmerecem intensamente aquilo fizeram. Segundo: procure aqueles que não sabem agradecer. Nunca dizem obrigado, nunca mesmo! Quando por um lance de lucidez percebem que o outro está fazendo algo por eles se colocam imediatamente no lugar de vítimas, e reclamam de sua própria condição. Acreditam piamente que a sua dor é tão grande, que por mais trabalho que dêem ao próximo, este trabalho não se compara a sua própria dor. Terceiro: só possuem histórias alegres e interessantes no passado. Nada, absolutamente nada, que tenham vivido com você é tão interessante assim. Quarto: normalmente são pessoas com algum dom magnífico e completamente abandonado. Quinto: o vampiro sempre espera que você ou outra pessoa resolva os seus problemas e lhe traga exatamente aquilo que deseja. Não considera a possibilidade de que cada um busca o que é para si e delega esta função aquele que se encontrar mais próximo. Sexto: toda vez que o vampiro fizer mal a você, vai se portar de uma maneira bem específica, parecendo que ele tem toda razão e que está profundamente magoado com você, invertendo toda a situação. Assim, você raramente ouvirá um vampiro dizer sinto muito ou me desculpe.
Parece loucura, insanidade. Muito mais difícil do que reconhecer os vampiros ao nosso redor é reconhecer quando nós somos suas prezas. Normalmente, enquanto prezas, acreditamos que tudo que podemos fazer é servir, servir e servir ao vampiro. Esta parece uma idéia insana de quem acredita que vai convencê-lo a ser feliz. Ei acorda, a sua felicidade se encontra hoje em não ser feliz. E toda vez que você busca transformar com toda a sua força vital a vida e a rotina que ele vive, mas e mais ele se apega na infelicidade. Ele consome o seu tempo, a sua energia, a sua força como areia movediça que te suga para o nada. Quando a relação entre vampiro e preza chega a este estado e finalmente você se percebe em uma grande teia da viúva negra, só há uma única saída saudável e admirável a realizar. De as costas e vá embora, o mais rápido que puder, com o resto de forças que ainda lhe cabe. Vá embora! Assim você novamente terá a chance de direcionar as suas forças vitais para a Sua felicidade, e construí-la. E quem sabe, em uma visão bem otimista, o vampiro não tendo mais de quem sugar a energia vital resolva utilizar a dele própria que permanece guardada nas profundezas de seu próprio ser em um baú a sete chaves. E assim, descubra que felicidade não é ter e nem ser, é conseguir... sendo a si próprio em atitude.
Hany Lissa Morgenstern
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